sexta-feira, 22 de novembro de 2013

alguma poesia


Fernanda Dias na Oficina de Poesia Falada 
 e Produção de Vídeo em Pedra Dourada-MG

alguma poesia 


 não. não bastaria a poesia deste bonde
que despenca lua nos meus cílios
num trapézio de pingentes onde a lapa
carregada de pivetes nos seus arcos
ferindo a fria noite como um tapa
vai fazendo amor por entre os trilhos.
não. não bastaria a poesia cristalina
se rasgando o corpo estão muitas meninas
tentando a sorte em cada porta de metrô.
e nós poetas desvendando palavrinhas
vamos dançando uma vertigem
no tal circo voador.

não. não bastaria todo riso pelas praças
nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
com os pardais despedaçando nas vidraças
e as mulheres cuidando dos seus filhos.

não bastaria delirar Copacabana
e esta coisa de sal que não me engana
a lua na carne navalhando um charme gay
e uma cheiro de fêmea no ar devorador
aparentando realismo hiper moderno,
num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno
como provar do amor no posto seis
numa cósmica e profana poesia
entre as pedras e o mar do Arpoador
uma mistura de feitiço e fantasia
em altas ondas de mistérios que são vossos

não. não bastaria toda poesia
que eu trago em minha alma um tanto porca,
este postal com uma imagem meio Lorca:
um bondinho aterrizando lá na Urca
e esta cidade deitando água
em meus destroços
pois se o cristo redentor  deixasse a pedra
na certa nunca mais rezaria padre-nossos
e na certa só faria poesia com os meus ossos.

Artur Gomes
In Couro Cru & Carne Viva
Prêmio Internacional de Poesia - Quebec - Canadá 1987
fulinaimicamente – neste vídeo com imagens captadas durante a Rio + 20 tem o poema acima interpretado pelo seu autor – Artur Gomes




Identidades
“com meus sonhos de menina”
Triste Sina, Jerónimo Bragança/Nóbrega e Souza

quinze anos e dúvidas
(para além das usuais)
a menina
com duas mães, cresceu
biológica, uma
(que a gerou, pariu e amamentou)
companheira da mãe, a outra

a mãe que a gerou, pariu e amamentou
mudou de gênero e identidade. a
menina passou a chamá-la de pai
(volta e meia, ainda lhe escapa um
mâeeeê!)

Dalila Teles Veras
no livro: estranhas formas de vida








ONIPRESENÇA

Aristóteles na Poética
abordou somente a técnica;
no mundo grego, contudo,
a poesis era tudo,
era o próprio movimento:
terra, fogo, água e vento, 
era a vida, as estações,
as marés, as emoções,
a dor, a cura, o remédio
a luta, os louros, o tédio, 
a pólis, a dança, o mito, 
os templos, o vinho, os ritos,
kairós, oportunidade,
destino, fatalidade,
o luto, a luta, a tragédia,
o riso, a festa, a comédia,
a química, a teologia,
a física, a filosofia,
ethos e cidadania,
o ciclo: a própria mudança
que retrocede e que avança.

Penso igual meus ancestrais
(pelo ramo do meu pai):
poesia é tudo o que há,
pra mim ela em tudo está
– desde as larvas mais estranhas
à fé que move montanhas.

Leila Míccolis




Tributo a Alberta Hunter

você cruzou o século vinte
longevalegremente
em estado de garça.
conheceu a injustiça,
o lodo, a lágrima,
como todos da nossa raça.
e no entanto você era o canto,
a essência do triunfo.
milênios de beleza
encontraram em sua voz
a vitalidade da fé –
africalegremente oculta
no élan dos ritos,
nas figas de marfim,
nas pérolas de búzios
e no blues.
você atravessou o século vinte
uivando para o céu
até a última letra da alegria,
a última sílaba
da palavra amor;
conheceu os porões da América
e seu coração atômico.

e no entanto você se integrou
ao ar real
se eternizando no cosmos
com a alma das flores e das pedras.

Salgado Maranhão
Do livro: A Cor da Palavra
Prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011


may pasquetti musadaminhacannon




fulinaimagem

1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel

artur gomes
Poesia do Brasil - Vol. 15
Editora Grafite – XX Congresso Brasileiro de Poesia
Bento Gonçalves-RS – outubro 2012

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