segunda-feira, 17 de setembro de 2012

IV Festival Aberto de Poesia Falada de São Fidélis - Resultado Final


IV Festival Aberto de Poesia Falada de São Fidélis - Resultado Final

fotos: artur gomes


Depois de um final de semana transpirando
poesia na cidade poema:  aqui
estamos de volta a goyta city, com o
 resultado do IV Festival Aberto de
Poesia Falada realizado pela Secretaria de
Cultura e Turismo de São Fidélis com o apoio
da Fulinaíma Produções

Atuaram na Comissão Julgadora entre outros:

Artur Gomes – poeta, ator, produtor cultural, vídeo maker
Jiddu Saldanha – ator, poeta, mímico, cineasta
Marcília Dutra – professor de teatro e dança na Escola Técnica de Arte, em Rio das Ostras e Fundação Zumbi dos Palmares em Campos dos Goytacazes
Thiago Eugênio – professor de literatura e língua portuguesas o CEDERJ
Kátia Valéria – professora de literatura e língua portuguesa no IFF campus-Campos-Guarus.

1º Lugar – Fazenda –
Autor: Edenilson Nascimento – Brasília-DF

O galo trazia a aurora.
E o cheiro de café quente
confortava os corações

No curral, o leite em neve
aquecia nossa espera
- crianças no seio da vida.

Um pouco além, ainda cedo,
meu pai deflorando a terra,
com seu arado de luz.

Minha mãe cerzia o tempo
com finos fios de ouro
nascidos de suas mãos.

Minha irmã se balançando,
pendurada nos dentes do dia,
na gangorra do bem-querer.

Minha avó, no quarto  de cima,
penteava nuvens rebeldes,
com dedos de esquecimento.

Os irmãos, tremeluzindo,
Nadávamos nus no riacho
- pássaros soltos no mundo.

E tios, vizinhos, amigos,
ao redor da fogueira
- pirilampos ao lusco fusco.

Os primos, vindos em bando:
e uma alcateia de gritos
riscava o ventre da noite.

Esse quadro ainda existe,
perdido em algum lugar,
na masmorra da memória.

Só não existe o menino,
que a cidade engoliu,
com seu hálito de enxofre.

2º Lugar – Poema Para Embalar Joana
Autor: Pedro Emílio de Almeida – São Fidélis-RJ

Quando Joana nasceu,
todas as estrelas
acordaram com ela
e em ciranda cantaram:

“Existe Bela-Joana
Existe Joana-Bela!”

Duas gotinhas de céu
pingaram nos olhos dela,
Joana tem cor de alvorada
e cabelos de luar.

Duas résteas de manhã
disseram nos lábios dela:
“Bela-Joana”  é serra
“Joana-Bela” é mulher.

Quando Joana sorriu,
todas as cores sorriram,
sorriram todas as flores,
até a tristeza sorriu.

Quando Joana andou
pisou leve, mansinho,
mas a primavera acordou
e os passarinhos cantaram:

“Existe Bela-Joana
existe Joana-Bela
Bela-Joana é serra
Joana-Bela é mulher!”

Quando Joana falou,
Um poema estava mudo
Joana acordou o verso
E as palavras rezaram:

- Joana cheia de graça!
- Joana cheia de luz!


3º Lugar – Construção
Autor: Luiz Otávio Oliani – Rio de Janeiro-RJ

a palavra é adaga
a cortar os pulsos

contra ela
milícias bombas
são inúteis

canhões não têm vez
sequer mordaças
a palavra não se cala
grita ejacula goza

a palavra é adaga
fere, mata
mas também é espera:
seu tempo é todo tempo


Melhor Intérprete
Eder Rodrigues – Pouso Alegre-MG
interpretando Aquele Velho Navio de sua autoria

“sigo quando o olho umedece por dentro apertura do mar”

Pela paz que as ignorãnças poemam,
colo um a um dos estilhaços
que sequer vão conformar meu reflexo
em estatura de barro ou vertigem de espelhos.

Não passei a vida tentando me desvendar,
a mercê dos tantos eus que a solidão coleciona.
Trago comigo só uma bússola quebrada,
com nortes incertos e nenhum pertence.

Demora, mas a vida se rende às dádivas do não chegar.
Sei pouco de lugar, raiz, pertencimento.
Meu coração foi criado no peito mesmo,
longe da didática dos rumos.

Meu desejo não pega carona.
Costuma ir a pé quando avista o interior das coisas.
Só mergulha quando se afrouxa o insuportável das vestes.
Já me livrei de lemas,
não engarrafo poemas e só furto poentes.

Sei que construíram deus de cimento e areia,
ainda que dessabe cada milímetro concreto
frente às dúvidas de quando o que se avermelha
em existência é o fundo das gentes
e não a altura dos santuários.

Pauso o movimento perpétuo da máquina do mundo
com o piar sucessivo dos pardais que ressuscitam a orgia
no escondido dos laranjais.

Há tempos deixei as escrituras
A estrutura do teto pelas chuvas de agosto
A terra em si que nunca me arranhou posses.

Sepultarei meus mortos no fundo do mar
onde mora um piano inventado que serve
de companhia quando a dor pesa séculos por dentro
aquém das superfícies.

Se o amor ficou fora de época
Desafio a moda lendo as linhas do corpo todo
e ainda dou aula de caligrafia para
umedecer a sutileza das cartas e o mistério da palavra.

Desculpa se meus certificados não tiveram parede
Se os bichos que estimo largo solto ao léu
Esquecimento faz parte do mundo
e na encruzilhada dos corpos,
perde quem não trilha pelos quatro cantos
onde os trens brincam de eternidade.

Despedida não faz parte de mim
Vim só para pedir tua bênção Pai Manoel
Ainda não encontrei aquele velho navio
Mas a arte me ensinou
a atravessar o mar dentro de um barco de papel.

Menção Honrosa – Intérprete –
Elena Evangelista – São Fidélis-RJ


Metáfora de Fogo

a língua lambe a palavra
na miragem meta física
metáfora de fogo
na ponte onde quase atravessamos
para a outra parte do poema
ela passeia
entre os fios elétricos da memória
onde as andorinhas
não conseguem decifrar
se eu desatar os lençóis do seu umbigo
desvendaremos as pirâmides do Egito
tocaremos infinito
pra  muito além do além mar

artur gomes

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