quinta-feira, 17 de março de 2011

Por melhores condições de trabalho e moradia, catadores ocupam barracão


Militantes de organizações populares fizeram mutirão para a organização e limpeza do espaço

Pedro Carrano, Brasil de Fato

Ednubia Ghisi, de Almirante Tamandaré (PR)

Onde os rios Barigui e Tanguá cortam e fazem a divisa entre Curitiba e a cidade de Almirante Tamandaré, 25 famílias de trabalhadores catadores de materiais recicláveis vivem em condições precárias, sujeitas a repetidas enchentes, comuns na região nos meses de fevereiro e março - não por acaso, a comunidade leva o nome de Ilha.

Sem local de trabalho para armazenagem e separação, os trabalhadores são obrigados a utilizar as próprias casas como depósito, o que torna crianças e adultos vulneráveis a doenças e obrigando a convivência permanente com o material. Os constantes alagamentos também provocaram a perda de grande parte do material reciclável coletado.

Diante do descaso do poder público, no dia 05 de março as famílias decidiram ocupar barracão próximo à comunidade, abandonado vinte anos, sem portões ou grades, que servia como ponto de uso de drogas e marginalidade. Informações de moradores apontam que o imóvel mobiliza vinte anos de dívidas de IPTU. A luta por melhores condições de trabalho e moradia tem apoio da Coopersol - Cooperativa Solidária de Reciclagem do Paraná, Assembleia Popular, Cefuria, Consulta Popular e Rede de Educação Cidadã – Recid.

Para transformar a estrutura abandonada em local de trabalho, catadores e militantes de organizações populares fizeram mutirão para a organização e limpeza do espaço. Quilos de entulhos foram retirados do barracão. Uma das salas tem sido utilizada para atividades culturais e oficinas para as crianças, realizadas por educadores apoiadores. As organizações envolvidas calculam que a iniciativa da ocupação irá beneficiar uma rede de 50 famílias de trabalhadores catadores da região do Tanguá.

A reação policial chegou rápido: no primeiro dia da ocupação a PM de Almirante Tamandaré ameaçou despejar as famílias caso não deixassem o barracão até o final da tarde. Em situações como essa, a experiência demonstra que o Estado busca uma primeira ameaça, no entanto, frente à exposição na imprensa e ao envolvimento de mais catadores nos trabalhos, a segunda abordagem policial resolveu aguardar o mandato de reintegração de posse, enquanto as famílias reformam a antiga fábrica.

Os Palestinos entendem Kadafi melhor do que nós

Michael Bernstam, membro da Hoover Institution de Stanford, escreveu um artigo acusando a UNRWA (órgão da ONU que presta auxílio nos campos de refugiados palestinos) de estimular o terrorismo internacional. Ele deveria encontrar-se com Kadafi. Os dois tem muita coisa em comum. Um desprezo absoluto pelos palestinos, por exemplo. E um abuso total de pessoas que perderam seu futuro e suas vidas. Abuso total contra todos os que não sejam de sua própria tribo. Não foi Kadafi que inventou a palavra “Israeltina”?

Robert Fisk – The Indepedent nomsitio CartaMaior

Beirute. Tormentas. Chuvas espessas. Os mares fustigam o pequeno porto próximo de minha casa. Uma reunião com um amigo próximo de um filho de Kadafi. “Ele quer uma batalha, habibi, quer uma batalha. Quer ser o grande herói guerrilheiro, o grande homem que luta contra os estadunidenses. Quer ser o herói líbio que enfrentou os colonialistas. Cameron, Obama, ele fará isso por vocês. E receberá o título de herói. Eles farão o que ele quer”.

Há muita fumaça de cigarro na sala. Demasiado. Isso ocorre no acampamento de refugiados de Mar Elias. Um homem que escapou do massacre de Sabra e Chatila, em 1982, de cabelo branco, da minha idade, sacode a cabeça ao falar da difícil situação de seu povo na Líbia. “Sabe, Robert, que há 30 mil palestinos?” Kadafi os colocou lá há mais de dez anos. A maioria é de Gaza. Regressavam a Gaza, os egípcios não permitiam que passassem e os israelenses não permitiam que regressassem às suas casas. Acabaram ficando na Líbia, esperando o melhor desta pessoa”.

Pobres velhos palestinos. Devia ter adivinhado que algo estava acontecendo em Jerusalém no ano passado quando um jornalista israelense me perguntou sobre o Organismo de Socorro e Obras Públicas das Nações Unidas (UNRWA), a agência que cuida dos refugiados palestinos desde os anos 60. “Estou certo”, me disse, “que tem alguma relação com o terrorismo, que desempenham um papel importante na manutenção do terrorismo. O que estão fazendo realmente no Líbano”. Naquele momento pensei que aquilo tudo era um pouco estranho. Se alguma instituição da ONU faz bem o seu trabalho esta é a UNRWA, ocupando-se da organização, da comida, da educação, da saúde e de outras necessidades de milhões de palestinos que perderam – ou cujos pais e avós perderam – seus lares em 1948 e 1949 no território que hoje é Israel.

Uma visita aos imundos acampamentos de Sabra e Chatilha em Beirute, ou de Ein el-Helweh em Sidón, é suficiente para demonstrar a qualquer pessoa que, no meio deste pântano de miséria e desesperança, a UNRWA representa a empatia do mundo, com um financiamento insuficiente, com pouco pessoal, muito pobre. No entanto, agora, a direita israelense e os que a apoiam estão marcando todas as organizações como provedoras das sombras, como “deslegitimadores”, uma rede de apoio aos palestinos que deve ser destruída para que os mais pobres entre os mais pobres – incluída a mais miserável população de Gaza – não se tornem dependentes de seus serviços sociais. A UNRWA – é difícil acreditar que seja a citação real de um pesquisador de uma importante universidade dos EUA, mas é assim – teria criado um “caldo de cultivo para o terrorismo internacional”.

Suponho que é para rir e chorar ao mesmo tempo, mas isso está dito em um cruel e distorcido artigo que apareceu na revista estadunidense American Commentary há algumas semanas, escrito por um tal de Michael Bernstam, membro da Hoover Institution de Stanford. Destaco-o não por ser atípico, mas porque representa uma tendência crescente e muito cruel no pensamento da direita israelense, um autoengano delirante que pretende nos convencer de que o objetivo dos mais pobres entre os palestinos mais pobres é a destruição de seus acampamentos.

Bernstam, em seu artigo, afirma que “há 60 anos, a UNRWA vem pagando a quatro gerações para que permaneçam como refugiados, e para reproduzir mais refugiados e mais vidas nos acampamentos de refugiados”, onde está, “efetivamente, a garantia de continuidade de um ciclo palestino autônomo destrutivo de violência, de derramamento de sangue fratricida e de uma guerra perpétua contra Israel”. Entendem o ponto? Agora, as Nações Unidas são a fonte de todo o terror.

Houve um tempo em que esse tipo de tolice podia ser ignorado, mas agora faz parte de uma narrativa cada vez mais perigosa onde a caridade se converte em um mal e onde a única instituição que fornece ajuda a cerca de 95% dos quase cinco milhões de refugiados palestinos se converte em alvo de ataque. E considerando que a UNRWA em Gaza converteu-se em objetivo de ataque durante o banho de sangue do final de 2008 e início de 2009, isso é algo bastante aterrador.

Mas espere. Isso vai mais além. “O mandato da UNRWA criou...um estado permanente de bem estar supranacional onde ao entregar à maioria dos palestinos auxílio desemprego fez desaparecer do mercado internacional os incentivos ao trabalho e ao investimento...criando um caldo de cultivo para o terrorismo internacional. Esta condição de refugiado sem limite de tempo é a que põe o pão na mesa, garante a casa sem pagar aluguel, além de um conjunto de serviços gratuitos. Isso permite que os palestinos sejam – tomem nota destas palavras – refugiados de guerra permanentes...alimentados por um particular ‘direito de retorno’ que os refugiados reivindicam para podem regressar à terra que ocupavam antes da independência de Israel”.

Tome nota da palavra “ocupavam”. Longe de serem donos da terra, eles a “ocupavam”! E tem uma demanda por seu “particular direito de retorno”. E esperem para ver a seguinte parte: “A demanda pelo direito de retorno palestino é pretendida por uma diáspora étnica histórica dos descendentes dos refugiados perenes para a repovoação de outro povo, o Estado-nação de Israel. Este não é o direito de regressar a um país, é o direito de retorno a um país que se perdeu em uma guerra, é uma reconquista, uma reivindicação de direito a recuperar esse território”.

E assim segue, e segue e segue...É preciso abolir a UNRWA, o que “significaria o fim do organismo mundial que é o apoio à continuidade da agonia dos palestinos...Israel é obviamente inadequado como país para reassentamento, porque a integração é inviável...Em vez de acabar com o beco sem saída criando o Estado que os palestinos necessitam, finalizando o reinado horrível de seis décadas da UNRWA, instantaneamente se criarão as condições para um processo de paz sincero, significativo e viável para o Oriente Médio”.

Aí está, Bernstam deveria encontrar-se com Kadafi. Tem muita coisa em comum. Um desprezo absoluto pelos palestinos. Abuso total de pessoas que perderam seu futuro e suas vidas. Abuso total contra todos os que não sejam de sua própria tribo. Não foi Kadafi que inventou a palavra “Israeltina”?

Tradução: Katarina Peixoto

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