quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Revolta árabe: o presidente líbio, rumo ao precipício?




Há alguns dias, enquanto o coronel Kadafi enfrentava a ira do seu povo, ele se reuniu com um velho conhecido árabe e passou 20 minutos de quatro horas perguntando-lhe se conhecia um bom cirurgião plástico para levantar as bochechas. É – tenho que dizê-lo tratando-se deste homem ? – uma história verdadeira. O ancião não tinha um bom aspecto, com o rosto inchado. Parecia a face de um louco, um ator de comédia que entrou na tragédia em seus últimos dias, desesperado pela última maquiagem, a chamada final para a porta do teatro.

Robert Fisk - Página/12 no sitio CartaMaior

Então também o velho, paranoico e lunático zorro da Líbia – o pálido, infantil ditador nascido em Sirte, dono de sua própria guarda pretoriana feminina e autor do ridículo Livro Verde, que uma vez anunciou que chegaria com seu cavalo branco a uma cúpula dos não alinhados em Belgrado – vai cair por terra. Ou já caiu. Na noite de segunda, o homem que vi pela primeira vez há mais de três décadas, saudando com solenidade uma falange de homens rãs uniformizados de preto que marchavam derretendo as nadadeiras no pavimento ardente da praça Verde em uma noite tórrida de Trípoli, durante um desfile militar de sete horas, parecia estar a caminho do fim, perseguido – como os ditadores da Tunísia e do Egito – por seu próprio povo enfurecido.

As imagens no Youtube e no Facebook relatam a história com um realismo granulado e opaco, a fantasia trocada por incêndios e quartéis de polícia em chamas em Bengasi e Trípoli, por cadáveres e homens armados, por uma mulher que se inclina com a pistola na mão desde a porta de seu automóvel, por uma multidão de estudantes – seriam leitores da literatura do tirano? – fazendo em pedaços uma réplica de seu espantoso livro. Tiros, chamas e gritos pelo celular: o epitáfio de um regime o qual todos apoiamos de quando em quando.

E aqui, só para focar nossa mente no cérebro de um desejo excêntrico, vai uma história verdadeira. Há alguns dias, enquanto o coronel Kadafi enfrentava a ira do seu povo, ele se reuniu com um velho conhecido árabe e passou 20 minutos de quatro horas perguntando-lhe se conhecia um bom cirurgião plástico para levantar as bochechas. É – tenho que dizê-lo tratando-se deste homem ? – uma história verdadeira. O ancião tinha um mau aspecto, com o rosto inchado, simplesmente a face de um louco, um ator de comédia que entrou na tragédia em seus últimos dias, desesperado pela última maquiagem, a chamada final para a porta do teatro.

Nesta hora, Saif al-Islam Al-Kadafi, fiel recriador de seu pai, teve que entrar em cena enquanto Bengasi e Trípoli ardiam e ameaçar com caos e guerra civil se os líbios não voltassem para a casa. Esqueçam-se do petróleo, do gás, anunciou este bobalhão abastado. Haverá guerra civil. Acima da cabeça do amado filho na televisão estatal, um Mediterrâneo verde parecia emanar de seu cérebro. É um bom obituário, se pensamos bem, para quase 42 anos de governo de Kadafi.

Não é exatamente como o rei Lear, quando ameaçava fazer tais coisas - sejam quais forem, não sei -, e que serão o terror da terra, mas sim como outro ditador em um bunker diferente, convocando exércitos diferentes que o salvaram em sua capital e colocando a culpa de sua própria calamidade nos ombros de seu povo. Mas esqueçam-se de Hitler: Kadafi seguiu uma carreira solo: Mickey Mouse e profeta, Batman e Clark Gable, Anthony Quinn no papel de Omar Mukhtar, em “O Leão do Deserto”, Nero e Mussolini (versão 1920) e, ao fim, inevitavelmente, o maior ator de todos: Muammar Kadafi.

Escreveu um livro intitulado “Fuga do inferno e outros contos”, muito apropriado para as infelizes circunstâncias atuais, e exigiu uma solução de um só Estado para o conflito palestino-israelense, que seria chamado de Israeltina.

Pouco depois expulsou a metade dos palestinos residentes na Líbia e disse a eles para marchar na direção de sua terra perdida. Abandonou ruidosamente a Liga Árabe por considerá-la irrelevante – um breve momento de sensatez, é preciso admiti-lo – e chegou a uma cúpula no Cairo confundindo deliberadamente a porta de um banheiro com a do salão de conferências até que o califa Mubarak o conduziu com um sorriso que denunciava sofrimento.

Se o que testemunhamos é uma verdadeira revolução na Líbia, logo poderemos – se os empregados das embaixadas ocidentais não chegarem antes e cometerem um pouco de pilhagem séria e desesperada – procurar nos arquivos de Trípoli e ler a versão líbia sobre o atentado contra o vôo 722 da UTA, em Lockerbie, sobre as bombas na discoteca de Berlim, em razão dos quais muitos civis árabes e a própria filha adotiva de Kadafi morreram nos ataques vingativos dos Estados Unidos, em 1986; sobre o fornecimento de armas para o IRA e os assassinatos de opositores dentro e fora do país; sobre o assassinato de um policial britânico; sobre a invasão ao Chade e as negociações com magnatas petroleiros britânicos (recaia a desgraça sobre nós neste ponto); a verdade acerca da grotesca deportação de Al Megrahi, o suposto autor do atentado em Lockerbie, demasiado doente para morrer, que talvez pudesse hoje revelar alguns segredos que o zorro da Líbia – junto com Gordon Brown e o procurador geral da Escócia , porque todos são iguais no cenário mundial de Kadafi – prefeririam que não soubéssemos.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer






Ana de Hollanda promete "portas abertas" a Pontos de Cultura, após reunião

Por: Anselmo Massad, Rede Brasil Atual

Ministra garante diálogo sobre futuro do programa Cultura Viva, cujo principal expoente são os Pontos de Cultura (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Arquivo)

São Paulo – Em reunião com membros da Comissão Paulista dos Pontos de Cultura, nesta terça-feira (22), em Brasília, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, prometeu manter portas abertas para o movimento. A reunião não constava da agenda oficial divulgada pela pasta mas durou uma hora, durante a qual os ativistas pediram celeridade para normalização de repasses de verbas de convênios, bolsas e prêmios do programa Cultura Viva. Eles também pedem que esse processo ocorra de modo transparente.

Dispostos a uma "ocupação pacífica" da sede do ministério, 50 integrantes da Frente Paulista dos Pontos de Cultura chegaram à capital federal na manhã desta terça. A reivindicação é de uma postura clara sobre a continuidade do programa e a respeito de como será feito o pagamento dos recursos atrasados. Até então, apenas uma reunião – convocada com menos 24 horas de antecedência – havia sido realizada entre representantes de Pontos de Cultura e Ana de Hollanda.

"As portas estão abertas, seja o que for preciso, nós estaremos aqui sim", disse Ana de Hollanda, segundo o coletivo Nós Digitais. O grupo acompanhou a reunião no Twitter. Ela pediu um pacto do diálogo, crédito e confiança, alegando que, a exemplo das demandas dos pontos de cultura, "toda a agenda está atrasada". O encontro foi transmitido ao vivo pela Twitcam.

Para Marcos Pardim, membro da comissão Paulista dos Pontos de Cultura, a reunião foi uma vitória porque representa uma ação de pessoas envolvidas no programa Cultura Viva sem a participação do MinC. Um ônibus partiu de Itu (SP) até Brasília. Ele acredita que o fato de Ana de Hollanda ter recebido os ativistas é uma demonstração de força do movimento.

"Para nós, esse começo de administração da nova equipe do MinC está muito ruidosa", admite Pardim. "O que queremos saber é o que é ruído, versão e o que é verdade", insiste. "O fato de a ministra ter nos recebido foi muito bom. Mas, quando recebermos o que o MinC nos deve, será ótimo", ironiza Pardim.

Cultura Viva

Embora Ana de Hollanda tenha se comprometido a manter as políticas do programa Cultura Viva, cujo principal expoente são os Pontos de Cultura, várias das iniciativas selecionadas manifestam preocupação sobre o futuro. Daniel Marostegan, do Pontão Teia Casa de Criação, de São Carlos (SP), avalia que há "insegurança" por conta da falta de diálogo.

Segundo Pardim, os atrasos nos repasses de verbas ocorrem desde o fim do ano passado, em relação a grupos por todo o país. Segundo pesquisa realizada pela Frente Paulista no Portal da Lei de Diretrizes Orçamentárias, dos R$ 205,3 milhões autorizados para serem gastos pelo programa Cultura Viva (Programa 1.141 do MinC), apenas R$ 14,4 milhões e R$ 70,99 milhões foram empenhados.

Desde o início da gestão de Ana de Hollanda, medidas administrativas e declarações têm sido motivo de apreensão por ativistas ligados a movimentos de cultura e cultura digital. Em janeiro, houve grande polêmica envolvendo direitos autorais e a adoção de licenças livres, em função da retirada da licença Creative Commons do site do ministério.

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Ativistas ligados à cultura atribuem a 'desconhecimento' decisões do MinC sobre direito autoral

Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

São Paulo - Ativistas ligados a produtores de mídia não comercial e a grupos de cultura digital articulam-se para tentar interferir nos rumos do Ministério da Cultura no que se refere a políticas de direitos autorais. Eles atribuem a "desconhecimento de causa" as medidas adotadas na gestão de Ana de Hollanda que desencadearam a polêmica desde o final de janeiro.

A discussão foi iniciada pela substituição da licença Creative Commons do site do ministério por um simples informe de autorização de reprodução. Para os críticos da medida, a mudança é simbólica e indica a possibilidade de alteração de rumos da política relacionada a direito autoral pela gestão de Ana de Hollanda. Declarações da ministra indicavam ainda disposição de voltar a discutir a lei que rege a questão.

"As ações da ministra foram simbólicas, sinalizam a posição de um governo que se inicia com uma inflexão sobre as conquistas feitas pelo MinC nos últimos anos", avalia Rodrigo Savazoni, do coletivo Cultura Digital. Militantes do setor ouvidos pela Rede Brasil Atual relatam que a abertura do diálogo sobre a situação da cultura digital no país foi conquistada no decorrer dos últimos oitos anos. O alcance foi inédito, segundo eles, na democratização da cultura.

"O que estamos debatendo é uma maneira de assegurar a continuidade da política que foi implantada, e não o seu esvaziamento", explica Ivana Bentes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ, um dos projetos participantes do Programa Cultura Viva, do governo federal.

Sobre a retirada da licença CC do site do MinC, Ivana afirma que a decisão foi preocupante porque a discussão já havia sido superada. "Obviamente não estamos falando de fato consumado, mas a ministra deu sinais de que, nos primeiros tempos de ministério, as coisas mudarão", lamenta.

Ivana refere-se a declarações de Ana de Hollanda que, em sua visão, demonstram "uma falta de informação básica do que já foi consquitado até aqui". "Ela ignorou as consultas públicas, o marco civil da internet e tudo que já tinha se discutido sobre a reforma do direito autoral", pontua a pesquisadora. Ivana Bentes foi enfática: "Esperamos que o MinC nao se feche com uma gestão de gabinete".

Savazoni levanta a hipótese de as decisões de Ana de Hollanda terem sido influenciadas por grupos empresariais ou políticos com os quais ela lidava e que a tivessem convencido de marcar posição. É nesse grupo que se incluiria o suposto convite do MinC ao advogado Hildebrando Pontes Neto, ligado ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) a assumir posto voltado a políticas de direitos autorais no ministério.

O jornalista afirmou que espera uma política que permita entender e lidar com temas contemporâneos, como os relacionados às implicações das novas tecnologias sobre a legislação de direitos autorais. Por isso, na visão de Savazoni, seria indispensável que o governo seguisse avançando no diálogo e, principalmente, na democratização da cultura digital, reafirmando o compromisso da internet livre.

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