quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

o estado carlos marighella

Enviado pelo editor do Blog da Dilma em Fortaleza, Luiz Edgard Cartaxo de Arruda Junio – cartaxoarrudajr@gmail.com

A abertura da IV Assembleia Nacional da Consulta Popular, que acontece em Salvador, escolheu o seu homenageado: Carlos Marighella, o revolucionário baiano, ”o inimigo público numero um da ditadura”, o homem que entregou sua vida por um Brasil soberano, assassinado em 1969 em São Paulo.

Seu filho, Carlinhos Marighella e os convidados paulistas da ALN (Ação Libertadora Nacional) Takao Amano e Aton Fon devolveram num afetuoso discurso o cálido abraço que centos de jovens lhes ofereceram num auditório tomado na noite da inauguração do evento nacional. Foi dado, assim, o pontapé inicial do centenário do Carlos Marighella, nascido na cidade da Bahia em 5 de dezembro de 1911.

Portanto será um ano dedicado ao estudo e comemorações sobre este mulato baiano, brincalhão, poeta, deputado comunista e guerrilheiro audaz, fruto de um imigrante anarquista italiano e uma negra haussá. Comemorar o seu centenário não deixa de ser um ótima oportunidade para voltar mais uma vez no tema que neste país continua ausente e subterrâneo, apesar dos esforços das Comissões da Verdade e da Justiça: o castigo oficial, o peso da Justiça aos que cometeram torturas sob a proteção ignominiosa do Estado.

Tema que países vizinhos enfrentaram frontalmente e hoje esgrimem seus satisfatórios resultados como atestado de dignidade e da necessária pressão popular, aspecto fundamental para reverter o imobilismo judicial no âmbito dos direitos humanos. Carlos Marighella e tantos outros grupos, que, armados principalmente de coragem, enfrentaram os anos de chumbo, dedicaram consideráveis energias ao regate de militantes nos porões da tortura.

O ínfimo resultado não apagou a permanência do seu nome da memória popular e, a depender da maturidade e consciência política do futuro do Brasil as palavras de Carlinhos Marighella, neste centenário, poderão repercutir com sucesso no país do futuro: “Neste país não tem uma rua, uma Praça, uma escola com o nome do meu pai, um herói do povo brasileiro, quando, no mínimo, deveria haver um Estado chamado Carlos Marighella!”.

Carlos Pronzato – Poeta, escritor e cineasta/documentarista
pronzato@bol.com.br
http://www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com/





A pintura morde minha pele
Desamarra meus medos mórbidos
Acerta na mosca elétrica
Ligada na minha força
Jogando no bicho enjaulado
Dentro do meu chapéu.
Chapéu que o vento leva,
Da cabeça avoada
Do meu corpo de vento
Levantado pelo tempo
Balançando em seus braços
As cinzas dos meus poros
Para a borracha do oásis
Escondida na areia.
Meus dedos murmuram
Invadem as nádegas das telas
Devoram sua brancura
Mergulham nas tintas
Criam vidas sobre elas
Na ânsia da eternidade
Gerada pelo meu vão pagão.
Eu sou o nada mudo
De naufrágio cigano.
Mudo. Mudo meu grito
Mudo meus dedos
No deslizar de uma nova obra
De vida estéril sobre os riscos
Estáticos entre o movimento
Dançado ao som dos ruídos do fim
Entre as carícias famintas
Acasaladas na mão do tempo
Que apertam o calor de minhas brasas
Esculpindo minhas cartas
Sem rótulo e destino
Em mel, pimenta e cinzas
Jantadas pelo mar.

Alcinéia Marcucci
no blog http://artedafemea.blogspot.com/



Saudade do Celso Amorim
por Luiz Carlos Azenha em www.viomundo.com.br

Eu estou absolutamente convencido de que Dilma Rousseff fará um governo competente e que Antonio Patriota, o ministro das Relações Exteriores que ela escolheu, nos surpreenderá com ideias brilhantes.

Permitam-me, no entanto, declarar que sinto saudade de Celso Amorim.

Sinto saudade de Celso Amorim porque o ex-chanceler brasileiro era capaz de pensar fora do quadrado (out of the box), ou seja, pensar fora da rigidez ideológica que geralmente acompanha os funcionários partidarizados de um governo. Só quem pensa fora do quadrado é capaz de encontrar soluções verdadeiramente inovadoras para velhos problemas. Neste sentido, Celso Amorim era o chanceler perfeito para liderar uma burocracia estatal competente, conhecida pela consistência, como é o Itamaraty.

Assistimos, nas últimas horas, ao desabar do grande pilar da política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio: regimes repressivos pró-ocidentais articulados com a prioridade absoluta de Washington nos últimos 50 anos (?), o de garantir a segurança de Israel. Permaneça ou não no poder, no curto prazo Hosni Mubarak será obrigado a fazer concessões impensáveis para um cliente fiel da política externa dos Estados Unidos.

Concessões que vão fraturar a ideia de que é possível calar a “rua árabe” às custas de alguns bilhões de dólares em ajuda anual. Estes acontecimentos são de uma enormidade equivalente à queda do muro de Berlim…

Washington já não manda mais no Oriente Médio como sempre mandou. O desgaste de Mubarak não tem relação apenas com o fracasso econômico de seu regime, mas também com o fato de que ele se distanciou da solidariedade árabe ao sofrimento dos palestinos nos territórios ocupados por Israel. Mubarak se vendeu por alguns tostões e, em certa medida, é isso o que os egípcios estão dizendo nas ruas.

A competência de Celso Amorim repousava na capacidade de reconhecer com rapidez as mudanças no cenário internacional e se adaptar a elas. Amorim reconheceu, por exemplo, muito antes que seus pares, o papel central da Turquia como elo de ligação entre os interesses do Ocidente — a Turquia integra a OTAN — e os do Oriente Médio. Amorim reconheceu o papel central que o Irã jogará no futuro da Ásia central, que independe da opinião de Washington a respeito do regime iraniano.

Um tempo de mudanças extraordinárias, como o que estamos experimentando, pede ousadia.

Seria realmente trágico se Dilma Rousseff recuasse na política externa criativa e ousada de Celso Amorim, aceitando pura e simplesmente uma papel subordinado do Itamaraty à política externa seletiva de “Direitos Humanos” de Washington.

Aliás, para quem condenou claramente o Irã, em entrevista ao Washington Post, será que Dilma não está nos devendo uma declaração sobre o Egito?

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