sábado, 14 de fevereiro de 2009

Artur Gomes EntreVista




Artur Gomes, entrevista concedida a Morgana Matoso, circulada em diversos veículos de comunicação no Vale do Paraíba, Taubaté e São José dos Campos.

Fale um pouquinho sobre você, seu trabalho, seus livros, prêmios...

Artur – Apesar de hoje transitar por várias linguagens, que foi a maneira que encontrei para melhor mostrar o que faço, me sinto essencialmente poeta. Pois é a poesia escrita que tenho como suporte, base, para buscar as outras formas de linguagens. Quando aos 12 anos fui fazer o Ginásio na Escola Técnica de Campos (hoje Cefet, centro federal de educação tecnológica), a primeira coisa que me encantou foi a Oficina de Artes Gráficas, e foi ainda nela, as minhas primeiras experiências com a criação de textos e a sua composição com tipos manuais, e posteriormente a impressão, com prensas também ainda manuais. As tintas, as diferentes fontes de tipos, aquele mundo novo (para mim que vinha do interior), pois nasci na Fazenda Santa Maria de Cacomanga), que fica a 6 kilômetros da cidade Campos dos Goytacazes, situada no norte do Estado do Rio de Janeiro.
A Tipografia exerceu em mim um fascínio enorme, e de cara, eu disse para a minha mãe que iria ser Tipógrafo(depois vim a descobrir que Casimiro de Abreu, que era meio parente do meu pai, também tinha sido tipógrafo em sua curta passagem pela terra). Depois que terminei o Ginásio, fui trabalhar o jornal A Cidade, em Campos, como linotipista. Em 1967 fui para o Rio de Janeiro, servir o exército, foram 6 meses em São Cristóvão, no Regimento de Cavalaria de Guarda, Dragões da Independência. Em dezembro o Regimento foi transferido para Brasília, e fiquei por lá até junho de 1968.
Quando retornei ao Rio comecei a fazer um curso livre de Teatro, mas numa ida a Campos visitar a família, fui convidado por um ex-professor para trabalhar na Oficina de Artes Gráficas da Escola, e nela permaneci de 1970 a 1986, quando mer tornei Coordenador de Atividades Culturais, na então Escola Técnica Federal de Campos, pois desde 1975, mesmo a revelia da Direção já dirigia Oficinas de Teatro com os alunos.
Meu primeiro livro foi lançado em 1973, UM Instante no Meu Cérebro, e logo a seguir vieram mais dois: Mutações em Pré_Juízo e Além da Mesa Posta. Esses primeiros passos no universo poético, trazem mostram uma preocupação existencial muito forte, diria até quase mística, apesar de não me considerar um indivíduo com uma religião definida, mas as histórias sobre Cristo, Judas, me inquietavam muito, tanto que, do Mutações em Pré-Juízo e Além da Mesa Posta, foram adaptados logo logo para o teatro, com o título de Judas O Resto da Cruz, encenada em 1975 e 1976, sendo aí a minha primeira experiência séria, de ator no palco, dirigido por Deneval Filho, hoje Doutor em Literatura na Universidade Federal do Espírito Santo.
Dessa primeira experiência, brotou o desejo que me leva até hoje a fazer o que mais gosto, falar poesia, pra mim tão essencial quanto escrever poesia. Mas interpretar poesia, oralmente e cenicamente exige um trabalho grande de domínio da fala, do ritmo e da memória, e isso eu aprendi que só conseguiria com o exercício teatral.
Em 1983, criei em Campos, o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira, com o objetivo de execução de eventos para Mostrar Poesia em todas as suas formas de linguagem. Escrita, falada, cantada, encenada, visualmente, verbalmente, com todas as tendências da poesia contemporânea brasileira.
Em 1993 a convite do SESC São Paulo, e em parceria com o Grupo Livre Espaço de Poesia, de Santo André, idealizei o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira Mário de Andrade 100 Anos, o que veio a nos render o prêmio APCA(Associação de Críticos de Arte de São Paulo), como a realização do ano, o que me proporcionou a criar em 1995 para o mesmo Sesc, o projeto Retalhos Imortais do SerAfim – Oswald de Andrade Nada Sabia de Mim.
Na década de 80 eu já circulava por várias Universidades ou Escolas Técnicas dirigindo Oficinas de Criação Literária e Poesia Falada, duas atividades que para mim estão completamente intrínsecas, ligadas medula e osso. Em 1985 lancei o livro Suor & Cio, e em 1987 Couro Cru & Carne Viva (prêmio internacional de poesia péla UNiverdiade de Laval Quebec – Canadá). Em 1979 eu tinha lançado em cordel o poema Jesus Cristo Cortador de Cana, e em 1980 O Boi-Pintadinho, ambos se tornando espetáculos teatrais, são textos onde começam a explodir a minha a linguagem começa a transitar no social, político e erótico, temática que está presente na minha poesia até hoje.
Em 1999 criei o FestCampos de Poesia Falada, festival aberto a todos os poetas do território brasileiro, coordenei a sua realização até 2004, e até hoje o evento é realizado pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, em Campos dos Goytacazes.
De 2002 para cá livre da função de arte educador no Cefet Campos, onde dirigia Oficina de Artes Cênicas, minhas viagens com espetáculos de poesia pelo país, se intensificaram, bem como as Oficinas de Criação Literária e Poesia Falada, e então começa a me despertar o interesse pela Vídeo Arte.

Você também transita pela música... existe diferença entre poesia
e letra de música?

Artur – na verdade, eu escrevi muito poucas letras de música, quase tudo que tenho nesse campo, são poemas que alguns parceiros como Naiman, Reubes, Luiz Ribeiro, Paulo Ciranda e Rodrigo Bitencourt musicaram. Nos anos de 1970 e 1980 o Paulo Ciranda transitou por todos os Festivais de Música do Estado do Rio, com músicas que tinham a minha parceria, vencemos vários deles, com músicas como Boi-Pintadinho, Fotografia Urbana e Balada Pros Mortais.
A poesia traz em si, a sua música própria, o seu próprio ritmo, a letra de música, apesar de termos letristas como Chico Buarque, Caetano, Gil, que são estupendos poetas, a poesia, na música obedece ao ritmo da melodia, as nuanceds da harmonia musical que ela estabelece. A poesia em si, está livre dessa condição, pode ser mais solta, ter uma sonoridade com imensas variações de tom, e isso é promordial para quem como eu, faz da poesia falada a sua melhor ferramenta de trabalho.

Você trabalhou com Amir Haddad. Fale um pouquinho desse encontro..

Artur – Amir é um grande mestre, e uma pessoa que cruzou na minha vida num desses acasos, que na verdade não são. Nos conhecemos numa reunião da UNE na Casa do Estudante Universitário, em Botafogo, no Rio. A reunião na verdade, era um encontro para ele expor as atividades do grupo de teatro Ta Na Rua, e cooptar pessoas para o Grupo, neste primeiro encontro mesmo, depois de uns 15 minutos de fala dele, já estávamos todos pelas ruas da Lapa e Cinelândia, encenando uma comédia de improviso sobre Histórias do Brasil. E daí em diante foram dois anos intensos de contato e trabalhos que executei sob a ótica do Teatro de Rua com a concepção que Le criou do improviso, do instantâneo, onde temos apenas que tirar da nossa bagagem, do nosso saco baú da memória, o que de melhor temos para apresentar na ocasião, dentro de um contexto apresentado ali no momento, pois é o público que encontramos no momento quem vai, definir o que vamos encenar, falar, representar. Tudo que sei de teatro do improviso, aprendi com ele.

Os seus vídeos em parceria com o Vaccari repercutiram muito no Vale.
Fale sobre esse encontro. Foi bom trabalhar com o Vaccari?

Artur – Trabalhar com o Vaccari é um prazer imenso, um exemplo de como podemos representar a arte livre, sem limites, fronteiras ou amarras. Nos conhecíamos apenas via internet, Orkut, e há um ano e meio mantínhamos um contato quase que diário, depois que ele me descobriu através de alguns vídeos no Youtube. E nesse primeiro encontro em Taubaté, produzimos uma dezena de vídeos.poesia, alguns inclusive já exibidos pela TV Vanguarda, e TV Gazeta, um deles filmado na casa do Flávio Itajubá, com Maracatu e Poesia. http://www.youtube.com/watch?v=PrvvdXb6a28&feature=channel_page


Você também produziu coisas com Juninho Vaccari. Juninho Vaccari
é isso tudo que dizem? O garoto é diferenciado mesmo?

Artur – O Juninho é Gênio, http://www.youtube.com/watch?v=Gnen4AzApQE&feature=channel_page realmente um garoto diferenciado, com um senso crítico apurado, além da profunda habilidade com que conduz uma câmera. Claro que isto é fruto da sua vivência familiar e convivência com a Arte desde os seus primeiros anos de vida. É impressionante o seu gosto musical, (fã incondicional de Edvaldo Santana), além da rapidez com que absorve um texto, e emite sua opinião sobre. As suas percepções sobre futebol também são hilárias. Ele diz que o seu negócio é dirigir e não interpretar, mas produzi muitos vídeos tendo ele como ator, que o resultado é surpreendente, onde ele mesmo se dizendo não querer, acaba fazendo com uma perfeição incrível. Ale, da sua sagacidade e inteligência para uma entrevista http://www.youtube.com/watch?v=8dHZ0jce9jA&feature=channel_page


Fechando a entrevista... além dos vídeos, você e Vaccari pretendem
produzir outras coisas pelo Vale? E o polo de cinema? E o teatro?
Vaccari e Artur Gomes dividirão o palco em apresentações pelo Vale?


Artur – Produziremos muito com certeza. Sem estarmos presos a uma
possibilidade única. Em primeiro lugar, o Vale, me interessa muito em conhecê-lo, pois por ele passa também o Rio Paraíba do Sul, que atravessa a minha cidade, Campos dos Goytacazes, rumo ao oceano Atlântico, e pelas suas margens subiram os índios Goytacazes em direção ao litoral paulista, e que com certeza também passaram aqui pelo vale.
Como descendente direto dessa tribo tenho grande curiosidade de conhecer mais a história desses nobres guerreiros nadadores que não se deixaram aprisionar nem pela catequese nem pela escravidão dos fazendeiros,donos das capitanias que se estabeleceram na região norte do Estado do Rio de Janeiro.
Produziremos vídeos, cinema, teatro e muita poesia. Sem estarmos preocupados de onde e como essa produção se dará. Tenho grande interesse de difundir por aqui o meu projeto: Oficina Cine Vídeo Teatro Poesia, que é a base para o fortalecimento pra o pólo de produção áudio visual Casa Cenográfica de Taubaté, e para isso vamos apresentar o projeto ao SESC a Secretaria de Cultura e a Direção do Museu da Imagem do Som, em busca de parecerias que nos possibilitem a execução deles.
Vou escrever o texto de apresentação de "HAKEVIRÁ", livro de fragmentos
que Vaccari lançará, ainda esse ano. Esse livro se desdobrará em uma peça, ou
espetáculo teatral... e terá direção desse que voz fala. Vou atuar em "SEM DESTINO?",
curta que terá direção de Vaccari. Oficinas de poesia, vídeoarte, teatro serão
produzidas no Vale, tendo como foco principal a formação de público e abertura
de novos horizontes na vida e na arte. Sempre lembrando que os frutos desse
encontro e desse POLO DE CINEMA serão veiculados na TV e também serão
veiculadas nessa coisa nova, embrionária, misteriosa e ainda sub-utilizada chamada internet.

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