sábado, 20 de setembro de 2008

“Quem não se arrisca não pode berrar”




Thaís BeretaEmail: thaisbereta@fmanha.com.br

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco; é estar sempre a perigo sem medo (...). É destruir a linguagem e explodir com ela (...). Quem não se arrisca não pode berrar.” A citação do poeta e letrista Torquato Neto parece sintetizar sua forma de (vi)ver o poema: (in)verso à linguagem delimitada por pré-estruturadas dimensões. E com essa idéia de “destruir a linguagem”, Torquato criou a sua, entrando para o universo dos poetas considerados “malditos”. Bendito seja esse universo, que também deu às Letras o curitibano Paulo Leminski.


Arriscando-se como Torquato e, justamente por isso, com “direito a berrar”, o poeta e pai de Estrela Leminski “é um cachorro louco”, como ele próprio escreveu. Suas “loucuras”, no entanto, expressas em palavras, retratavam tamanha lucidez que compuseram uma indecente — no melhor sentido do termo — linguagem poética.


Essa linguagem “maldita” referencia os autores que, mal incompreendidos ou censurados, custaram a ser lidos e aceitos. Como Charles Baudelaire; como Arthur Rimbaud. Excêntricos, transgressores, compromissados com o novo, os “malditos” se tornaram fonte de redenção para muita gente. “Eu queria tanto/ Ser um poeta maldito”, disse Leminski certa vez. E conseguiu. E não só conseguiu, como inspirou (e inspira, até hoje) muitos artistas, de vários os segmentos.


Entre esses artistas está o poeta Artur Gomes, que abusa da(s) linguagem(s) para montar suas performances teatrais. Artur, que conheceu Leminski em ares cariocas, é fã de longa data do autor de “Distraídos Venceremos” (São Paulo, Brasiliense, 1987, 133 pág.). E fala com gosto dos “malditos” que, segundo ele, vieram “para desafinar o coro dos contentes”: — São poetas fundamentais para se entender não só a poesia contemporânea, mas o país.


Utilizando uma linguagem direta, coloquial, os “malditos” não vieram para brincar. E são pouco estudados academicamente porque ainda existe, por parte dos estudiosos, um certo medo de se mexer com essa vivacidade. Para se conhecer um pouco mais dessa vivacidade, vale ler do Leminski: “Caprichos e Relaxos” (São Paulo, Círculo do Livro, 1987, 154 pág.), “Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase” (Curitiba, Zap, 1980), e ouvir “Verdura”, música de Caetano Veloso, no disco “Outras Palavras”, que tem a letra do poeta.


Já o Torquato, explode com a linguagem no livro “Os Últimos Dias de Paupéria”, organizado por Ana Maria Duarte e Waly Salomão e publicado em 1973. Os poemas do letrista também estão compilados na antologia “26 poetas hoje”, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda.


Performance “Malditos Bem Ditos” é o título da performance que acontece no próximo dia 24, às 20h, no Sesc-Campos. Organizada e encenada por Artur Gomes, a intervenção “vídeo-poética” vai desmembrar poemas de Leminski, Torquato, e de outros autores, como Estrela Leminski e Ademir Assunção. O espetáculo será realizado no Sesc, que fica na Avenida Al-berto Torres. A entrada é gratuita e, durante todo o evento, serão exibidos filmes, feitos pelo próprio Artur, em que o ator interpreta os autores.

Publicada no dia 19-09-2008 - http://www.fmanha.com.br/

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